Um dia a gente percebe que, dorme criança e acorda mulher. Então encontramos a calcinha e o lençol encharcado de lembranças infantis. A cor preferida já não é mais rosa. A cor agora é vermelho sangue. Mamãe, titia e irmã me enganaram! Virar mulher é muito mais que ter cólicas, usar absorvente e tomar o famoso “atroveran” (toma que passa… não passa não). Virar mulher é perceber que a alma e os sentimentos também menstrua.
Fui descobrindo e tentando resolver tudo. O primeiro emprego, a faculdade, as dívidas…
Sem perceber, aprendi a optar e descobri que a vida num todo é um jogo de escolhas. Permiti intrusos em minha vida, aceitei ofensas alheias, abaixei a voz para não perder a razão, (só que a vontade é sempre de gritar, esperniar), engoli sapos, lágrimas, mágoas. Lamentei a falta de atenção constante com as crianças, lamentei o casamento que nunca terei. Chorei sentada no chão do banheiro, a água quente caía para aliviar o dia ruim.
Num momento, me dei conta que sou a própria responsável pelo que me causam.
Com o passar do tempo, depois de tantas experiências boas e ruins, a gente acorda mais molhada, mais doída, mais ausente… As vezes mais leve, mais presente.
Ontem fui durmir cedo, mas antes fiz uma oração (não sei se por superstição ou vontade de que minhas próximas escolhas sejam iluminadas). Senti o ambiente carregado.
Hoje acordei, tomei banho, café. Peguei o lixo e levei para fora. Me perdoei pela boa esposa que não consegui ser, me perdoei por não ser uma mãe 100% presente… Senti saudade de um beijo leve, de um abraço confortante. Subi as escadas, amarrei meu cabelo, peguei minha jaqueta, dei um beijo nas crianças (que ainda dormiam) e saí.
Dei-me conta das limitações que são tantas, dei-me conta das escolhas erradas, dei-me conta do sossego que não me permito.
Estou com cólicas de mim mesma, do que permito aos outros e não permito à mim.
Estava procurando uma imgem para meu novo blog e achei o seu blog. Adorei o texto, me emocionou de verdade.
A Alma humana
Destituiu-se de si.
Paira na bruma
Das tardes cinzentas,
Sem tranquilidade,
Sem paz.
Percorre
Os infinitos caminhos do Mundo,
As estradas vazias,
Sem orientação determinada.
Procura
O Paraíso perdido
Em todos os corpos outros,
Sem saber qual é a sua linhagem.
Ofusca-se
Com os raios do Sol,
Na exuberância do seu ser,
Na incomensurabilidade
Do seu brilho e esplendor.
Vagueia
Pelas ondas imensas
Do mar revoltoso,
Companheiro dos ventos do Norte.
Oh, ventos malditos,
Que tudo arrastam,
Movem
E comovem.
Oh, ventos daninhos,
Que tudo agitam
Abalam
E deslocam…
No intenso redemoinho universal,
Da Vida que rodopia,
Em todos os espaços sombrios,
Por todos os lugares indescritíveis.
E a Alma humana permanece,
Sobrevive, assim,
Apesar de todos os infortúnios.
Encontra-se por aí,
Algures,
De novo, destituída de si.
Isabel Rosete