picture: http://homemgrilo.com
Sob o sol abrasador que me queima a tez, daqui onde estou, vejo o mundo. Vejo as ruas, as curvas, meninos e meninas patinando nos córregos, devido à chuva anterior. Quase consigo ouvir suas gargalhadas soltas e frescas. Fiquei ali, debruçada, atraída pelo lençol branco estendido no quintal da vizinha. Um ruído horrível interrompe minha tarde de sossego. Era o molequinho da rua de baixo, com sua mini moto motorizada. Ele sentou na sombra da árvore que ficava em frente da minha casa, olhou para cima e acenou pra mim. Sua alegria era contagiante. Acenei também. Vi Tatá passando pela rua – “nossa, quanto tempo não vejo essa menina!”. Taís foi minha colega de escola, estudamos juntas na 4ª série. Cresceu ouvindo animadas menções ao seu derrière. Ela sofria com todos os apelidos que lhe eram dados: tanajura, Tata-Popo, e muitos outros. Ela era ótima aluna, tinha as melhores notas. Às vezes íamos até sua casa para fazer trabalhos escolares, mas para isso, passávamos pelos meninos e escutávamos suas piadas perversas. Quando chegávamos à sua casa, ela reclamava com sua mãe – “Será que eu terei sempre esse bundão?… Quando eu crescer, quero uma bunda normal” – “Reclama não filhinha, Deus pode castigar, o importante é ter saúde”. Fazíamos o trabalho, eu ia para minha casa e ela trancava-se no quarto para evitar mais olhares. Ficava horas de costas no espelho, entortando o pescoço para analisar melhor aquela buzanfa que herdara de sua mãe. Taís sentia um certo calor na bunda, também, tamanha era a energia dos tantos olhares que percorriam aquele tremendo universo que trazia às costas. Na escola, os apelidos não eram ditos em voz alta, mas na entrada e saída da escola, na hora do recreio, escutávamos alguns zum-zum-zum de outras meninas, que fugiam dela quando chegávamos perto, elas procuravam manter o máximo de distância. A ultima vez que nos falamos, foi há alguns anos atrás, já tínhamos mudado de escola. Encontramo-nos no ponto de ônibus, ela estava muito bonita, a bunda ficou proporcional ao corpo. No ponto, perguntei como estava, onde trabalhava e se estava namorando. Ela respondeu-me tudo. Começamos a relembrar à infância, o primeiro namorado, as decepções. Contou-me que a primeira vez que resolveu transar com alguém, decidiu na hora “H”, mas o objetivo do rapaz não era pelos canais adequados, mas sim o outro. Afirmou que foi uma tragédia, e eu não parava de rir. Acontecimentos como esses, fizeram com que Taís repensasse sobre sua sina. Com todos os vexames que teve que se submeter, tentou amadurecer o mais rápido possível, mudando de escola e de horário, passou a estudar a noite e trabalhar de dia. Ganhou uma face mais afoita, elogios mais obscenos, os olhares que a achavam uma menina engraçadinha de bumbum arrebitado, estavam diferentes, observavam como ela estava mais segura de si, e olhando-a da janela, senti-me feliz por ela ter conseguido superar esse pequeno, ou grande problema.




