Publicado por: Vê Barros | 10/10/2008

TATA – TANAJURA

 

picture: http://homemgrilo.com

Sob o sol abrasador que me queima a tez, daqui onde estou, vejo o mundo. Vejo as ruas, as curvas, meninos e meninas patinando nos córregos, devido à chuva anterior.  Quase consigo ouvir suas gargalhadas soltas e frescas. Fiquei ali, debruçada, atraída pelo lençol branco estendido no quintal da vizinha. Um ruído horrível interrompe minha tarde de sossego. Era o molequinho da rua de baixo, com sua mini moto motorizada. Ele sentou na sombra da árvore que ficava em frente da minha casa, olhou para cima e acenou pra mim. Sua alegria era contagiante. Acenei também. Vi Tatá passando pela rua – “nossa, quanto tempo não vejo essa menina!”. Taís foi minha colega de escola, estudamos juntas na 4ª série. Cresceu ouvindo animadas menções ao seu derrière. Ela sofria com todos os apelidos que lhe eram dados: tanajura, Tata-Popo, e muitos outros. Ela era ótima aluna, tinha as melhores notas. Às vezes íamos até sua casa para fazer trabalhos escolares, mas para isso, passávamos pelos meninos e escutávamos suas piadas perversas. Quando chegávamos à sua casa, ela reclamava com sua mãe – “Será que eu terei sempre esse bundão?… Quando eu crescer, quero uma bunda normal” – “Reclama não filhinha, Deus pode castigar, o importante é ter saúde”. Fazíamos o trabalho, eu ia para minha casa e ela trancava-se no quarto para evitar mais olhares. Ficava horas de costas no espelho, entortando o pescoço para analisar melhor aquela buzanfa que herdara de sua mãe. Taís sentia um certo calor na bunda, também, tamanha era a energia dos tantos olhares que percorriam aquele tremendo universo que trazia às costas. Na escola, os apelidos não eram ditos em voz alta, mas na entrada e saída da escola, na hora do recreio, escutávamos alguns zum-zum-zum de outras meninas, que fugiam dela quando chegávamos perto, elas procuravam manter o máximo de distância. A ultima vez que nos falamos, foi há alguns anos atrás, já tínhamos mudado de escola. Encontramo-nos no ponto de ônibus, ela estava muito bonita, a bunda ficou proporcional ao corpo. No ponto, perguntei como estava, onde trabalhava e se estava namorando. Ela respondeu-me tudo. Começamos a relembrar à infância, o primeiro namorado, as decepções. Contou-me que a primeira vez que resolveu transar com alguém, decidiu na hora “H”, mas o objetivo do rapaz não era pelos canais adequados, mas sim o outro. Afirmou que foi uma tragédia, e eu não parava de rir. Acontecimentos como esses, fizeram com que Taís repensasse sobre sua sina. Com todos os vexames que teve que se submeter, tentou amadurecer o mais rápido possível, mudando de escola e de horário, passou a estudar a noite e trabalhar de dia. Ganhou uma face mais afoita, elogios mais obscenos, os olhares que a achavam uma menina engraçadinha de bumbum arrebitado, estavam diferentes, observavam como ela estava mais segura de si, e olhando-a da janela, senti-me feliz por ela ter conseguido superar esse pequeno, ou grande problema.

 
Publicado por: Vê Barros | 08/10/2008

Estrela de Teto

O celular despertou as 07h30 da manhã. Como já era de hábito. Macabéa desligou e deslizou profundamente por debaixo do edredom. Espreguiçou-se, e esticou os braços até a cabeça. Massageou suavemente seus cabelos ruivos. Pensou em ficar por mais cinco… Talvez dez minutos a mais na cama, naquele silêncio inerte. Deu um pulo pra fora, abriu a porta do guarda-roupa onde se encontra um espelho a sua altura. Observou seu rosto. Visualizou sua imagem de baixo para cima… Olhou o relógio, já eram quase nove horas. Caminhou descalça até o banheiro tirando a camiseta e jogando-a em cima da cadeira. Alguns raios do sol trespassavam pelas vidraças do banheiro, dando vida a um pequeno arco-íris e iluminando os pêlos dourados de sua pele. Era sábado, dia de organizar as coisas. Ligou o som para espantar a preguiça e acordou a menina Florisbela. Tomaram um café reforçado, e enquanto a menina Florisbela limpava a cozinha, Macabéa começou a arrumação pelo quarto. Mudou a cama de lugar, levou alguns livros que estavam na sala para o quarto. Os cremes ficaram na penteadeira junto com os perfumes, colocou a maquiagem dentro de uma lata entre os livros e finalizou a limpeza do quarto, colocando uma cortina mais clara. Pendurou no cabideiro as bolsas, echarpes, cachecol, lenços e cintos de várias cores. No quarto ainda tinha caixas de sapato no chão, uma pilha de papéis e bichos de pelúcia para todos os lados. Era perdoável, já que ela estava organizando a bagunça. Começou a analisar aqueles diversos livros.  Ao lado alguns DVDs. Sentou no chão e pôs-se a observar os títulos. Romances, fantasia em abundância, drama, policial, mitologia… Gabriel Garcia Marquez, Tomás Eloy Martinez, Platão, Nilson Lage, Shakespeare, Cony, Machado de Assis. Entre os vídeos, alguns grandes clássicos do cinema.  Pensava isso enquanto folheava um livro de Vinicius de Moraes. Ao fundo o rádio tocava Fly me to the moon” de o Frank Sinatra. Concentrou-se novamente e leu: Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura… Essa intimidade perfeita com o silêncio… Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo… Macabéa fechou o livro e com um suspiro longo olhou o teto branco… Vago… Sem brilho. Preciso fazer algo para mudar esta aparência sem graça pensa. Chamou a menina Florisbela que terminara de tomar banho e começava secar os cabelos, trazendo a toalha úmida na mão. Vamos dar uma volta?” _ Ela perguntou. A menina Florisbela , como mal conhecia a cidade direito, respondeu com a cabeça afirmativamente. Elas terminaram de colocar a casa em ordem e foram se preparar para sair. Resolveram antes de comprar qualquer coisa, passar no salão para pintar as unhas e cortar os cabelos. A imagem vazia do teto do quarto, não saía da cabeça de Macabéa. Ela teve a maravilhosa idéia de comprar estrelas fosforescentes para colocar naquele teto sem vida. Chegaram a casa. Macabéa passou pela porta do quarto quase que levitando. Pediu para menina Florisbela grudar os adesivos nas estrelas, luas e cometas que haviam acabado de comprar. Pegou a escada e grudou um a um. Apagou a luz e foi fechando a porta atrás de si. Por um instante parou e se permitiu olhar para as estrelas no teto e relembrar momentos de sua infância. Lugares, pessoas, amizades, aventuras e os aprendizados inesquecíveis. Escola primaria, primeiro uniforme, e o primeiro livro. Brincadeiras de jogos de botão, figurinhas, papel de carta, coleção de selo. Ruas de terra, chácaras, rãs e pescarias. Matinê do cinema de domingo. Casas muros e portões baixos, sem preocupação de manter portas fechadas. Noites frias juninas. Descidas audaciosas, emocionantes, nas ruas asfaltadas, em carrinhos de rolimãs. Algodão doce, quebra-queixo, pipocas coloridas, maçã do amor. Incríveis malabaristas, trapezistas e apaixonada por palhaços de circos. Nos finais das tardes os vizinhos sentados nas cadeiras, conversando nas calçadas. Famílias, diferentes origens: portuguesas, italianas, espanholas. Na paróquia, catecismo, coroinhas, missas, o badalar do sino pendurado na corda. A vida passou depressa. Muita coisa depois, Macabéa viveu. Voltou a si e com ar saudoso fechou a porta do quarto e sentiu que nunca e nada na sua vida será vazio ou escuro.

Publicado por: Vê Barros | 26/09/2008

ESCOLHAS

 

picture by Beto

Com a mudança no departamento, entre papéis velhos, pastas antigas e pó sobre pó, parei pra pensar nas escolhas que eu tenho feito. Cheguei a conclusão que a gente escolhe o tempo todo, mesmo quando acha que não. Tudo é escolha. Não escolher acaba sendo uma escolha. A cada passo que dou, estou optando por um caminho, mesmo que sem querer. Como diz o ditado: “Cada escolha uma renúncia, isso é a vida”. Posso escolher entre reclamar ou mudar. Entre dar valor às pessoas que amo ou não. Posso viver com toda a intensidade o presente que a vida dá, ou ficar presa a um passado que já acabou e, portanto, não há mais nada a fazer. Às vezes acerto nas escolhas e às vezes não. Acredito que se estou hoje onde estou, foi onde minhas escolhas me trouxeram. Aquelas que eu fiz e aquelas das quais eu abri mão. Eu escolhi ser feliz e apesar de tropeçar de tempos em tempos, consigo me levantar, aprender e seguir em frente.  As escolhas e tropeços que venho vivendo, vão me levando por onde eu quero mesmo caminhar. Tem muitas coisas que há um tempo era só um sonho distante, e que hoje está aqui, eu toco com as mãos, é minha realidade. Não que hoje eu seja a pessoa mais segura do mundo, nem que eu tenha absoluta certeza de tudo o que quero e de todos os desvios e atalhos que devo ou não tomar para chegar lá. Eu não tenho, não. Uma das grandes maravilhas dessa caminhada é a possibilidade de se perguntar, de se questionar, de mudar de idéia. De sentar na beira do caminho, esticar o corpo e olhar o horizonte, sem pressa de saber pra que lado seguir. Procuro seguir os caminhos das curvas, das bifurcações. E até nos desvios e descaminhos, que nos fazem repensar, aprender e crescer. Hoje eu faço minhas escolhas com mais serenidade. Preocupo-me menos em provar – embora ainda me preocupe mais do que gostaria. Hoje eu acordei meio que sentindo a vida me invadir. Hoje, além de saber por onde eu não vou, sei também um pouquinho sobre pra onde quero ir.  Escolho carregar sozinha o peso das escolhas que eu fizer. Escolho temperamentos calmos… Escolho viver de acordo com o que penso ser certo.  Afinal, a nossa Vida é o resultado das nossas escolhas.

Publicado por: Vê Barros | 23/09/2008

A menina dos olhos

E la Percorria 37 km/h para chegar ao trabalho, e mais uma vez, nessa mesma estrada, foi admirando a bela paisagem que surgia a cada trecho corrido. Montanhas, casas, estradas que se perdiam no meio de tantas árvores. A luz do dia colaborava para tornar tudo mais fantástico e inesquecível. Tirou os olhos da estrada por alguns segundos. Guardou todo aquele encanto na memória. Sentiu um aperto no coração, um aperto de alegria misturado com saudade e dor.

Recordava todos os momentos bons de quando era criança. Lembrou da ultima viagem feita com seu pai. Ele a chamava de menina dos olhos . Uma viagem que jamais esquecera. Rememorava o tchau que deu pela ultima vez, sem saber que seria o ultimo. Lembrou-se dos olhos cansados de seu pai. Olhos de tanto sofrimento. E ainda assim, ele a chamava de menina dos olhos . Acariciou suas mãos e seu rosto abatido. Resolveu deixá-lo descansar.

Sentou-se na calçada da casa. Olhava para o vazio e recordava quantos momentos bons ele havia proporcionado a ela. Lembrou do primeiro emprego longe de casa. Ele acompanhou todo o trajeto para a menina dos olhos  não se perder no caminho. Dentro de um ônibus lotado, sentiam-se únicos, ele e a menina dos olhos . Estavam felizes e ao mesmo tempo preocupados. Ela de ficar longe de casa e ele de ter que deixá-la sozinha num lugar desconhecido.

Hoje, talvez, se ela tivesse enxergado a gravidade da sua doença, não teria poupado mais tempo ao seu lado. Visitaria mais e não se contentaria com as desculpas da sua mãe. Se ela soubesse disso, teria abraçado mais, teria viajado mais com ele, passado mais tempo ao seu lado, teria feito mais arte para receber mais broncas. Sentia saudades de suas palavras, carinho e apoio. Sentiu saudade do seu colo, do cafuné que recebia nas longas noites em que assistiam filmes e mais filmes. Sentiu saudades dele chamando " menina dos olhos",  apelido dado por ele. Ela chega no seu rumo. Despertou para a realidade. Sentiu-se feliz pela pouca recordação que veio em seu pensamento. Recordação que contiunará guardando com carinho e ternura. E a vida continua.

Publicado por: Vê Barros | 10/09/2008

NÓS

Mais do que eu e você,
quando me vejo refletida no espelho
dos seus sonhos,
sem saber onde começa você,
onde eu acabo,
percebo, ternamente, nós.
Quando sua boca toca minha boca
e a sua língua traça labirintos no meu céu,
descubro, apaixonadamente, nós.
E, se depois do amor
nos entregamos ao delírio
em contemplar em nossos corpos
a luz que paira em mim e em você,
entre luas, estrelas,
galáxias, universo girando,
loucamente,
somos completamente…NÓS.

texto de: Marisa Zanirato

Publicado por: Vê Barros | 01/09/2008

Macabéa – Nem tudo o que é bom, dura para sempre…

M acabéa acordou no domingo mais ou menos 09h00. Sob a luz do dia, apertava os olhos para enxergar os traços do seu adorável e amado Príncipe Bob. Por menor e mais simbólico que fosse aquele domingo, ainda sim, para ela, seria mais um domingo cheio de alegria e amor, simplesmente por estar ao lado do tão sonhado Príncipe Bob.  Espreguiçou-se demoradamente, tocando as mãos ao lado para sentir e ter certeza de que não passava de um sonho. Macabéa ouvia a respiração dele, tão próxima e quente, que poderia ser a sua. Olhou por cima do ombro, um belo corpo, as lembranças agora eram frescas. Os raios de sol surgiam naquela manhã fria. Levantou-se, camiseta verde e meias rosa. Aproximou-se da janela e respirou profundamente o vento frio da manhã. Deixou que os lábios formassem um sorriso que só ela conhecia bem. Achava que estava em mais um dia realmente feliz – Príncipe Bob surpreendentemente estava ali. Macabéa sentiu vontade de registrar aquele momento que lhe era tão prazeroso.  Foi até a mesa da cozinha, abriu a bolsa e pegou papel e caneta. Queria colocar um pouco das idéias no papel ainda naquele momento, do contrário, perder-se-iam em meio a tantos afazeres e chuvas de pensamentos que costumava ter.

Nossa querida e aprendada Gata Macabéa Borralheira, estava com um coração abestalhado, abrandado e debulhado. Poderia sim ter sido um domingo feliz. Queria registrar. Escreveu uma pequena frase: “por que te amo tanto?” Guardou o papel e pegou a chaleira para preparar o café do seu amado. Respirou profundamente, deixando-se invadir pelo prazer que sentia naquela ocasião. Durante àquelas horas de contentamento em seu reino, Macabéa estava envolvida com certo vate. Durante aquele dia e tarde preservou-se de todo e qualquer hábito desagradável que tinha. Queria estar bela, agradável e com cheiro de frutas vermelhas e cacau para seu Príncipe Bob. Queria enfim estar a altura. Altura de quê, cacete? Conscientemente nem ela sabia que ele estava achando tudo aquilo, que não era nada disso, rotineiro, tedioso, maçante e o diabo a quatro. Enfim, depois de várias sessões de DVD, carinho pra cá, carinho pra lá, Macabéa achando que tudo estava perfeito, completo e primoroso, Príncipe Bob quebra o encanto de mais um final de semana com suas dúvidas e imprecisões. Quebrou suas propostas de ser uma “boa-mocinha-amada-amante” .  Só então Macabéa pôde entender que Príncipe Bob é sempre imprevisível, com suas ações, reações, anseios e resoluções. A tarde passou. Distanciaram-se.

Macabéa estava lá, seguindo pelo caminhozinho de flores, amor e paz, sabia que fora apenas vontade dela de que tudo tivesse dado certo. Macabéa resvalou-se em tristeza, puta sentimento ruim. Surgiu a carência pelo abalo da treta que rolara naquele começo de noite. Macabéa passou o resto da noite desfigurada de desgosto e indecisões, depois de Príncipe Bob ignorá-la pela qüinquagésima vez, como vem acontecendo rotineiramente. Macabéa ficou mergulhada em seus pensamentos. Percebeu que o tempo passa, mas seu sentimento não consegue mudar. Então ela se pergunta: “porque as coisas têm que ser assim?” Realmente as coisas não dão certo às vezes, mas Macabéa nunca duvidou de nada, principalmente que nada seria como ela sempre desejou.

Publicado por: Vê Barros | 26/08/2008

A lenda do João-de-Barro

Conta uma lenda indígena que, há muito tempo, numa tribo do sul do Brasil, um jovem apaixonou-se por uma moça de grande beleza. Melhor dizendo, apaixonaram-se. Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou:
- Que provas podes dar de tua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
- As provas do meu amor! – respondeu o jovem.
O velho gostou da resposta mas achou o jovem atrevido. Então disse:
- O último pretendente de minha filha falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
- Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
Toda a tribo se espantou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova. Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorou e implorou ao Deus Lua que o mantivesse vivo para seu amor. O tempo foi passando. Certa manhã, a filha pediu ao pai:
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
O velho respondeu:
- Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece. E esperou até a última hora do novo dia.
Então ordenou:
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé. Quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seus olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e cheirava a perfume de amêndoa. Todos se espantaram. E ficaram mais espantados ainda quando o jovem, ao ver sua amada, se pôs a cantar como um pássaro enquanto seu corpo, aos poucos, se transformava num corpo de pássaro! E exatamente naquele momento, os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceu para sempre. Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro. A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constrói sua casa e protegem os filhotes. E os homens amam o joão-de-barro porque lembram da força de Jaebé, uma força que vinha do amor e foi maior que a morte.”

Publicado por: Vê Barros | 25/08/2008

HAMLET

“To be or not to be, –that is the question:–
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them?”
– From Hamlet (III, i, 56-61)

Hamlet descobre que a humanidade é um estado de erro, se não para executar a maldade, para manter em silêncio os que, feridos na consciência, não conseguem executar um ato de justiça em defesa dos que foram logrados na existência.

A pergunta não precisa da interrogação porque se perde na incerteza de continuar ou pensar que parou em algum momento. E todos se perdem tentando descobrir o que ficou encoberto pela mais sábia mente, como se fosse possível sobrepujar a superioridade que se mostra em simples dedilhar de construção melodiosa.

Publicado por: Vê Barros | 22/08/2008

PRECIOSA

 

 

A través das palavras, sou levada pra lá de todo o começo, e atrás de mim existe uma voz insistindo que eu exponha todas as palavras necessárias que estiverem no meu íntimo.  Essas palavras me encontraram e agora dizem sobre estranhas dores, estranhas faltas, estranhos amores. Talvez, essas palavras já tenham me levado até o limiar de minha própria história, e depois de passado alguns anos e com pensamentos diferentes sobre esses estranhos sentimentos, resolvi entrar em cena.

Saí do mundo do faz de conta em que eu me encontrava e voltei para o mundo real disposta a limpar gavetas, rever bilhetes velhos, cartas de amores passados. Algo que eu pudesse olhar, imaginar, meditar ou simplesmente sentir.

Perdi o parâmetro por alguns momentos. Senti minhas recordações próximas como uma transparência calma, profunda e indefinidamente aberta para deixar levar-se. Não há nada que eu possa fazer, além de escrever, então deixarei meu pensamento viajar como um barco à deriva.

 Da apreciação feita com a proclamada delicadeza nada restará, apenas uma existência transitória destinada sem dúvida a apagar-se.

Tudo na vida tem uma validade que nos coloca sobreaviso, e talvez de tudo tenha restado algo, que só se possa enxergar quando possível ao olhar novamente para trás com tranqüilidade, e selecionar entre tantas visões, imagens, olhares e pensamentos, uma história que pudesse descrever esse esboço ou ruínas de uma obra que sou capaz de fazer e surpreender.

São apenas detalhes de uma vida que renasce absolutamente novo, em cada um dos seus pontos, a todo o momento, com toda frescura, a partir das coisas, dos sentimentos ou dos pensamentos. Escuto, reflito, questiono, contesto. Faço tudo isso mentalmente, diligentemente. Sei agora qual é a palavra que eu quero que me conduza e que se aloje no meu próprio ser… Apenas amor!

Publicado por: Vê Barros | 18/08/2008

Te procurando em mim

O prazo que dei para eu ficar bem comigo mesma, não foi o suficiente para melhorar meu humor. Que nada! Sexta foi mais um daqueles dias péssimos (talvez não tanto quanto outros dias). Ocupei a mente com a faxina da casa. Limpa aqui, limpa ali. Uma boa música para acompanhar, sorrisos das crianças, latido de cachorro. O ânimo estava em alta, força de vontade a mil. Joguei algumas lembranças fora, guardei outras. É fundamental renovar as recordações para não se prender totalmente ao passado. Acabou. Estou deslocada. Estou fora do contexto novamente. Tentei ultrapassar meus limites, meu espaço… Estou cansada… Muito cansada.

Pensei que eu fosse forte para suportar tamanha dor, no fundo sou mais do que uma pessoa comum, com um vazio camuflado. Estou cansada de dar o melhor de mim, tentando fazer com que tudo fique bem. Agora estou aqui, sozinha, medindo palavras para conseguir expressar-me. O calor da noite me desperta. Olho pra longe, viajando não sei onde e procurando um tema para escrever. Veio você na cabeça, a lembrança de como foi especial um único momento.

O calor aguça o vazio de não saber o que falar. Vou escrever um pouco sobre você, sobre mim, sobre nós. Diminuo o volume do som para escutar melhor meu coração. Encosto na parede, fecho os olhos e recordo:

“Eu o vi sentado no bar, onde marcamos de nos encontrar, nos conhecer. Nunca esquecerei. Lindo. Pele clara, olhar expressivo, sorriso doce. Foi um cenário perfeito. Seus cabelos finos, moldados vez ou outra pelo vendo do ar condicionado. Graças ao vento gelado do ar condicionado, senti suas mãos quentes sobre meus ombros. Meu corpo estremecia. Não conseguia descruzar as pernas, não conseguia olhar no fundo de seus olhos, só consegui sentir a emoção daquele momento inesquecível. Guardei na boca o gosto doce de um passado presente”.  

Desviei o olhar para a porta. Desconcentrei-me com a dor que aperta meu peito, desconcentrei-me com a escuridão da noite. Deito. Me aconchego entre rasgos de lembranças tentando manter a lucidez na coerência das idéias. Sinto-me partindo em pequenas partes, fragmentada, dividida entre o sonho e a realidade. Hoje a minha companhia será a lembrança que me envolve e transborda em paz e aconchego. Clareio meu pensamento, te acho dentro de mim. Então é hora de descançar, viro para o lado esperando que as recordações afaguem minha mente. O som ainda toca leve, sereno.

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