Arquivo para setembro 2008

ESCOLHAS

26 de setembro de 2008

 

picture by Beto

Com a mudança no departamento, entre papéis velhos, pastas antigas e pó sobre pó, parei pra pensar nas escolhas que eu tenho feito. Cheguei a conclusão que a gente escolhe o tempo todo, mesmo quando acha que não. Tudo é escolha. Não escolher acaba sendo uma escolha. A cada passo que dou, estou optando por um caminho, mesmo que sem querer. Como diz o ditado: “Cada escolha uma renúncia, isso é a vida”. Posso escolher entre reclamar ou mudar. Entre dar valor às pessoas que amo ou não. Posso viver com toda a intensidade o presente que a vida dá, ou ficar presa a um passado que já acabou e, portanto, não há mais nada a fazer. Às vezes acerto nas escolhas e às vezes não. Acredito que se estou hoje onde estou, foi onde minhas escolhas me trouxeram. Aquelas que eu fiz e aquelas das quais eu abri mão. Eu escolhi ser feliz e apesar de tropeçar de tempos em tempos, consigo me levantar, aprender e seguir em frente.  As escolhas e tropeços que venho vivendo, vão me levando por onde eu quero mesmo caminhar. Tem muitas coisas que há um tempo era só um sonho distante, e que hoje está aqui, eu toco com as mãos, é minha realidade. Não que hoje eu seja a pessoa mais segura do mundo, nem que eu tenha absoluta certeza de tudo o que quero e de todos os desvios e atalhos que devo ou não tomar para chegar lá. Eu não tenho, não. Uma das grandes maravilhas dessa caminhada é a possibilidade de se perguntar, de se questionar, de mudar de idéia. De sentar na beira do caminho, esticar o corpo e olhar o horizonte, sem pressa de saber pra que lado seguir. Procuro seguir os caminhos das curvas, das bifurcações. E até nos desvios e descaminhos, que nos fazem repensar, aprender e crescer. Hoje eu faço minhas escolhas com mais serenidade. Preocupo-me menos em provar – embora ainda me preocupe mais do que gostaria. Hoje eu acordei meio que sentindo a vida me invadir. Hoje, além de saber por onde eu não vou, sei também um pouquinho sobre pra onde quero ir.  Escolho carregar sozinha o peso das escolhas que eu fizer. Escolho temperamentos calmos… Escolho viver de acordo com o que penso ser certo.  Afinal, a nossa Vida é o resultado das nossas escolhas.

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A menina dos olhos

23 de setembro de 2008

E la Percorria 37 km/h para chegar ao trabalho, e mais uma vez, nessa mesma estrada, foi admirando a bela paisagem que surgia a cada trecho corrido. Montanhas, casas, estradas que se perdiam no meio de tantas árvores. A luz do dia colaborava para tornar tudo mais fantástico e inesquecível. Tirou os olhos da estrada por alguns segundos. Guardou todo aquele encanto na memória. Sentiu um aperto no coração, um aperto de alegria misturado com saudade e dor.

Recordava todos os momentos bons de quando era criança. Lembrou da ultima viagem feita com seu pai. Ele a chamava de menina dos olhos . Uma viagem que jamais esquecera. Rememorava o tchau que deu pela ultima vez, sem saber que seria o ultimo. Lembrou-se dos olhos cansados de seu pai. Olhos de tanto sofrimento. E ainda assim, ele a chamava de menina dos olhos . Acariciou suas mãos e seu rosto abatido. Resolveu deixá-lo descansar.

Sentou-se na calçada da casa. Olhava para o vazio e recordava quantos momentos bons ele havia proporcionado a ela. Lembrou do primeiro emprego longe de casa. Ele acompanhou todo o trajeto para a menina dos olhos  não se perder no caminho. Dentro de um ônibus lotado, sentiam-se únicos, ele e a menina dos olhos . Estavam felizes e ao mesmo tempo preocupados. Ela de ficar longe de casa e ele de ter que deixá-la sozinha num lugar desconhecido.

Hoje, talvez, se ela tivesse enxergado a gravidade da sua doença, não teria poupado mais tempo ao seu lado. Visitaria mais e não se contentaria com as desculpas da sua mãe. Se ela soubesse disso, teria abraçado mais, teria viajado mais com ele, passado mais tempo ao seu lado, teria feito mais arte para receber mais broncas. Sentia saudades de suas palavras, carinho e apoio. Sentiu saudade do seu colo, do cafuné que recebia nas longas noites em que assistiam filmes e mais filmes. Sentiu saudades dele chamando “ menina dos olhos”,  apelido dado por ele. Ela chega no seu rumo. Despertou para a realidade. Sentiu-se feliz pela pouca recordação que veio em seu pensamento. Recordação que contiunará guardando com carinho e ternura. E a vida continua.

NÓS

10 de setembro de 2008

Mais do que eu e você,
quando me vejo refletida no espelho
dos seus sonhos,
sem saber onde começa você,
onde eu acabo,
percebo, ternamente, nós.
Quando sua boca toca minha boca
e a sua língua traça labirintos no meu céu,
descubro, apaixonadamente, nós.
E, se depois do amor
nos entregamos ao delírio
em contemplar em nossos corpos
a luz que paira em mim e em você,
entre luas, estrelas,
galáxias, universo girando,
loucamente,
somos completamente…NÓS.

texto de: Marisa Zanirato

Macabéa – Nem tudo o que é bom, dura para sempre…

1 de setembro de 2008

M acabéa acordou no domingo mais ou menos 09h00. Sob a luz do dia, apertava os olhos para enxergar os traços do seu adorável e amado Príncipe Bob. Por menor e mais simbólico que fosse aquele domingo, ainda sim, para ela, seria mais um domingo cheio de alegria e amor, simplesmente por estar ao lado do tão sonhado Príncipe Bob.  Espreguiçou-se demoradamente, tocando as mãos ao lado para sentir e ter certeza de que não passava de um sonho. Macabéa ouvia a respiração dele, tão próxima e quente, que poderia ser a sua. Olhou por cima do ombro, um belo corpo, as lembranças agora eram frescas. Os raios de sol surgiam naquela manhã fria. Levantou-se, camiseta verde e meias rosa. Aproximou-se da janela e respirou profundamente o vento frio da manhã. Deixou que os lábios formassem um sorriso que só ela conhecia bem. Achava que estava em mais um dia realmente feliz – Príncipe Bob surpreendentemente estava ali. Macabéa sentiu vontade de registrar aquele momento que lhe era tão prazeroso.  Foi até a mesa da cozinha, abriu a bolsa e pegou papel e caneta. Queria colocar um pouco das idéias no papel ainda naquele momento, do contrário, perder-se-iam em meio a tantos afazeres e chuvas de pensamentos que costumava ter.

Nossa querida e aprendada Gata Macabéa Borralheira, estava com um coração abestalhado, abrandado e debulhado. Poderia sim ter sido um domingo feliz. Queria registrar. Escreveu uma pequena frase: “por que te amo tanto?” Guardou o papel e pegou a chaleira para preparar o café do seu amado. Respirou profundamente, deixando-se invadir pelo prazer que sentia naquela ocasião. Durante àquelas horas de contentamento em seu reino, Macabéa estava envolvida com certo vate. Durante aquele dia e tarde preservou-se de todo e qualquer hábito desagradável que tinha. Queria estar bela, agradável e com cheiro de frutas vermelhas e cacau para seu Príncipe Bob. Queria enfim estar a altura. Altura de quê, cacete? Conscientemente nem ela sabia que ele estava achando tudo aquilo, que não era nada disso, rotineiro, tedioso, maçante e o diabo a quatro. Enfim, depois de várias sessões de DVD, carinho pra cá, carinho pra lá, Macabéa achando que tudo estava perfeito, completo e primoroso, Príncipe Bob quebra o encanto de mais um final de semana com suas dúvidas e imprecisões. Quebrou suas propostas de ser uma “boa-mocinha-amada-amante” .  Só então Macabéa pôde entender que Príncipe Bob é sempre imprevisível, com suas ações, reações, anseios e resoluções. A tarde passou. Distanciaram-se.

Macabéa estava lá, seguindo pelo caminhozinho de flores, amor e paz, sabia que fora apenas vontade dela de que tudo tivesse dado certo. Macabéa resvalou-se em tristeza, puta sentimento ruim. Surgiu a carência pelo abalo da treta que rolara naquele começo de noite. Macabéa passou o resto da noite desfigurada de desgosto e indecisões, depois de Príncipe Bob ignorá-la pela qüinquagésima vez, como vem acontecendo rotineiramente. Macabéa ficou mergulhada em seus pensamentos. Percebeu que o tempo passa, mas seu sentimento não consegue mudar. Então ela se pergunta: “porque as coisas têm que ser assim?” Realmente as coisas não dão certo às vezes, mas Macabéa nunca duvidou de nada, principalmente que nada seria como ela sempre desejou.